Girando a Roda Mágica
Yoga

Girando a Roda Mágica


Por Alejandro Chaoul-Reich

Fotos: Michael Sexton

Há um crescente interesse no ocidente quanto ao Yoga físico tibetano. Um dos maiores periódicos sobre o tema nos EUA, o Yoga Journal, publicou dois artigos sobre Yoga tibetano num mesmo ano: um sobre os tipos de Yoga tibetano que vieram para o Ocidente e outro sobre um livro, O Templo Secreto do Dalai Lama (The Dalai Lama's Secret Temple), que descreve as pinturas do templo secreto do Dalai Lama em Lassa, atrás do famoso Palácio de Potala. Muitas destas pinturas são posturas de Yoga físico tibetano, ou Trul Khor, que se traduz como “roda mágica”.


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Até recentemente, os ocidentais estavam mais focados em receber ensinamentos tibetanos que desenvolvem a mente, sendo que a maior parte dos Yogas físicos ensinados no ocidente vinha das tradições hindus. Acredito que esse cenário tenha se ramificado a partir da crença dos praticantes ocidentais do Budismo Tibetano (incluindo o Bön) de que as práticas mentais seriam mais importantes. Assim, quando um lama vinha, ele era requisitado para os ensinamentos relativos à mente. Muitos dos lamas tibetanos apoiavam esta visão, pois ou não eram treinados em Trul Khor ou sentiam que tal prática pudesse levar a problemas para os praticantes, caso não fossem bem supervisionados.


Isso resultou em falta de informação sobre o Trul Khor, combinada a um ar de sigilo e misticismo ao seu redor, como reflete o título de um artigo do Yoga Journal (maio/junho 2000), “Vamos ao Místico”. Qualquer que seja o caso, as práticas de Trul Khor estão agora sendo ensinadas no Ocidente. Além disso, diferentes cursos de treinamento estão sendo oferecidos e traduções dos textos originais estarão em breve disponíveis.


As três portas: corpo, fala e mente

“Toda experiência, seja durante o dia ou no sonho, tem uma base energética. Essa energia vital é chamada de lung em tibetano, mas é mais conhecida pelo seu nome sânscrito: prana. A estrutura subjacente de qualquer experiência é uma combinação precisa de várias causas e condições. Se formos capazes de reconhecer suas dinâmicas mentais, físicas e energéticas, então poderemos reproduzir essas experiências ou alterá-las. Isso nos permite gerar experiências que apoiem a prática espiritual e evitar aquelas que a prejudiquem”.

Nosso corpo físico, nossa fala ou energia e nossa mente são tidas como as três portas através das quais a pessoa pode praticar e, eventualmente, alcançar a iluminação. O corpo energético, representado pelo prana ou alento vital, é tido como a ligação entre a mente e o corpo físico. Trul Khor envolve a coordenação do movimento físico que guia o alento vital, que por sua vez carrega a mente. A palavra em sânscrito para Trul Khor é Yantra Yoga, que também é o nome pelo qual se conhece o Trul Khor, este chegou desde o famoso erudito e tradutor Vairochana, do século VIII, até Namkhai Norbu Rinpoche, que o tem ensinado no ocidente. Ambos os termos, Trul Khor e Yantra, têm o significado de “magia”, “máquina” e “movimento”; enquanto Yoga (ou naljor em tibetano) pode significar “união”, “prática” ou, em seu sentido mais profundo, “conhecimento primordial” ou “entendimento”. De acordo com Namkhai Norbu Rinpoche, “nal significa ‘original’ ou ‘autêntico’, ‘imutável’, ‘a condição original’ e jor significa ‘ter’ ou ‘descobrir esse conhecimento’ ou ‘entendimento’”.

Assim, o significado real de Yoga é que descubramos nossa condição real. Dessa forma, o corpo é como uma máquina ou ferramenta que está disponível para o praticante, de modo a entender sua verdadeira natureza ou sua condição real. As práticas de Trul Khor utilizam completamente o corpo, a fala e a mente numa inter-relação que é similar ao que se conhece no Ocidente como prática mente-corpo. A respiração vital é o aspecto da fala ou energia e é a base para o Trul Khor, assim como o pranayama é crucial na prática dos diferentes tipos de Hatha Yoga. De fato, as práticas de Trul Khor assumem, explícita ou implicitamente (dependendo do texto), que o praticante esteja familiarizado com as práticas de Tsa Lung. Tsa refere-se aos “canais sutis” e lung, ao alento vital ou prana. Em outras palavras, o Tsa Lung é crucial no treinamento e harmonização do alento vital, que é a base do Trul Khor.


Tenzin Wangyal Rinpoche baseou muito das práticas de Tsa Lung que ele ensina no antigo texto Bön do Tantra-Mãe ou Ma Gyu. Os cinco exercícios essenciais de Tsa Lung vêm do capítulo “A Esfera dos Elementos” (Jung We Tiglé) do Tantra-Mãe e familiarizam o praticante com os cinco tipos de respiração. Através de simples movimentos corporais, o alento vital guia a mente a locais específicos, ou chacras, abrindo e harmonizando tais locais a experiências que possam apoiar a prática meditativa. Esses locais e experiências também se correlacionam com os cinco elementos e as qualidades a eles relativas.

O Tantra-Mãe usa a metáfora de um cavalo selvagem para o alento vital e a de um cavaleiro para a mente. O cavalo selvagem é cego, necessitando assim de um guia, e o cavaleiro é manco, necessitando assim ser carregado. Eles precisam um do outro de modo a fluir conjuntamente pelos caminhos dos canais sutis. As práticas de Tsa Lung ajudam a manter a mente na respiração que a guia através dos diferentes canais, para que o praticante possa abrir e desenvolver as qualidades que sejam benéficas e apoiem sua prática.

No sistema de Vairochana que Namkhai Norbu Rinpoche ensina há oito movimentos que purificam a respiração (Lung Sang). São considerados como movimentos preparatórios muito importantes para o Yantra Yoga.

Trul Khor

Tendo treinado a respiração, o alento vital e os canais sutis, os movimentos de Trul Khor indicam então várias posturas que alteram o fluxo da respiração, pois manipulam os canais sutis e estabilizam a mente em conjunto com o alento vital no canal central. Quando isso ocorre, a consciência do estado natural da mente é despertada.

Há muitos tipos de práticas de Trul Khor em diferentes tradições tibetanas e elas estão sendo lentamente divulgadas no ocidente. O Yantra Yoga que é ensinado na Comunidade Dzogchen de Namkhai Norbu Rinpoche está baseado num texto chamado “A Roda Mágica da União do Sol e da Lua” (Trul Khor Nyida Kha Jor). O Trul Khor que é ensinado no Instituto Ligmincha de Tenzin Wangyal Rinpoche vem da “Quintessência das Instruções da Transmissão Oral de Zhang Zhung” (Dzogpa Chenpo Zhang Zhung Nyen Gyu Le Trul Khor Shel Zhe Men Ngag) e seu comentário pelo famoso meditador e erudito Shardza Tashi Gyaltsen (nascido em 1859; corpo de arco-íris em 1934), que também compôs “As Gotas do Coração do Dharmakaya”, entre muitos outros textos. O comentário de Shardza Rinpoche é chamado de “A Roda Mágica, os Canais e o Alento Vital da Tradição Oral de Zhang Zhung” (Nyen Gyu Tsa Lung Trul Khor) e está incluído na sua coleção do “Grande Tesouro do Profundo e Vasto Céu” (Yang Zab Namkha Dzod Chen). A descrição de Trul Khor a seguir se baseará em sua maior parte nesta última tradição. Ao final, detalhes de como obter maiores informações sobre ambas as tradições também serão incluídos.

Zhang Zhung Nyen Gyu (A Transmissão Oral de Zhang Zhung)

O Trul Khor da Transmissão Oral de Zhang Zhung contém sete ciclos, cada um contendo de cinco a seis exercícios. Cada ciclo é atribuído a diferentes professores da linhagem de Zhang Zhung. Esses mestres usaram o Trul Khor para estabilizar sua prática meditativa e remover obstáculos que perturbavam o descanso do praticante no estado natural da mente. Esses movimentos fortalecem a saúde física do praticante e sua estabilidade emocional. Entretanto, o Trul Khor é feito primordialmente para desenvolver a prática da meditação. Isso se faz palpável na homenagem de abertura a Kuntu Zangpo ou Samantabhadra, “que purifica os obstáculos externos e internos”.

Os movimentos de Trul Khor que guiam a respiração para desenraizar venenos e deixar brilhar a sabedoria primordial foram desenvolvidos por seis mestres diferentes, cada um formatando um (num único caso, dois) dos sete ciclos. Estes são classificados em: ciclo preliminar (ngondro), ciclos-raiz (tsawa), ciclos ramificados (yenla) e especiais (chedrag).

Antes de começar os exercícios, a pessoa treina o alento vital, exercitando os canais sutis especificamente para ser capaz de se manter naturalmente relaxado no canal central com uma respiração que permeia todo o corpo. Em todos os exercícios, aconselha-se reter a respiração de maneira natural e então exalar com certa força ao final, com auxílio dos sons Ha e Phat. Isso ajuda a remover todos os obstáculos para que o praticante e todos os seres sencientes possam ser levados a permanecer num puro estado meditativo: o estado da budeidade.

O ciclo preliminar começa ao se aplicar o treino respiratório através de exercícios que aquecem e suavemente massageiam cada parte do corpo. Através destes exercícios o alento vital é equilibrado e os canais sutis são purificados.

Os ciclos-raiz são os ciclos principais, praticados para manter o estado natural da mente, às vezes também chamados de exercícios para aguçar a prática meditativa (bog don). Esses exercícios cruciais se relacionam aos cinco elementos e diz-se que fecham a porta para a entrada dos cinco venenos e abrem o canal que é o portão de entrada da sabedoria primordial. Assim, os obscurecimentos para o estado natural são purificados (geg sel) junto com a lassitude e a agitação, que são os principais obstáculos para se permanecer no estado meditativo. Dessa forma, a mente e o alento vital entram no canal central e as formações conceituais são liberadas. O texto afirma que esses exercícios também ajudam a se livrar de diferentes doenças, a equilibrar os elementos, trazer calor para o corpo e que têm até mesmo o poder de reverter o processo de envelhecimento. Outras façanhas iogues também são mencionadas.

Os exercícios dos ciclos ramificados continuam o processo de eliminação das obstruções e obstáculos internos e externos e mantêm a unificação do alento vital no canal central. Os exercícios dos ciclos especiais são externamente como um foco mais profundo em cada parte do corpo, internamente cortando as doenças, permitindo que consciência clara surja naturalmente e que a sabedoria inamovível alvoreça.

Diz-se que praticar esses exercícios de Trul Khor nutre fortemente a receptividade a momentos de consciência não conceitual e de liberação autoespontânea, que podem então ser levados à vida cotidiana. Em outras palavras, a pessoa deve usá-los quando a meditação no estado natural da mente for anuviada, instável ou fraca de algum modo.

Eles são algumas vezes prescritos como um auxílio para um praticante Dzogchen “retomar”, estabilizar ou clarificar sua meditação. Dessa forma, a pessoa segue as instruções corporais do exercício e, enquanto a respiração é naturalmente retida, a mente é mantida em seu estado de meditação junto com a respiração. Então, com a exalação e os sons Ha e Phat, a pessoa consegue romper quaisquer conceitos e obstáculos que persistem e pode permanecer estavelmente no estado natural da mente.

Alejandro “Alex” Chaoul, Ph.D. completou seu doutorado com foco em Religiões Tibetanas na Universidade de Rice, um dos mais importantes centros de ensino superior dos EUA. Tem ensinado meditação tibetana e técnicas mente-corpo sob os auspícios do Instituto Ligmincha em várias partes dos Estados Unidos, México e Polônia desde 1995. Ele é agora um Professor Assistente no Centro Médico Doutor John P. McGovern para a Saúde, Humanidades e o Espírito Humano na Escola Médica da Universidade do Texas em Houston, com uma posição adjunta no Centro para o Câncer Doutor Anderson, onde ele pesquisa o uso de técnicas de mente-corpo tibetanas no tratamento de apoio para pacientes com câncer.

Ele completou o programa de sete anos de estudo da tradição do Budismo Bön do Tibet no Instituto Ligmincha, vindo a abrir o discurso das tradições Bön do Yoga Tibetano no meio acadêmico ocidental de idioma inglês com sua tese na Universidade de Rice. Em seu trabalho, faz referência a um famoso e antigo mestre Dzogchen Bönpo, Shardza Tashi Gyaltsen, revelando sua capacidade em absorver estes antes secretos métodos espirituais talhados por milhares de anos e demonstrar sua eficácia também no nível físico, na saúde do indivíduo.




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